
No agreste da vida, estava eu, como sempre sozinha, dentro de um ônibus bairro a bairro, quando um sinal ficou vermelho.
E aí, um rapazinho de muito boa aparência (não era um menino de rua, de forma alguma; estava mais para um pequeno artista), colocou-se em frente aos carros e começou a fazer malabarismos com uma pequena bola de vidro.
Em movimentos fluidos e harmoniosos, ele encantava a uma platéia anônima, passando a impressão que a bola flutuava no ar. Fiquei-me perguntando o que ele ganhava com toda aquela exibição de talento e harmonia, pois com certeza, não eram aquelas poucas moedas suficientes para nada. E, no entanto, ele se mostrava tão satisfeito.
No final deste mesmo dia, tive a resposta esclarecedora. O objetivo principal, não eram as moedas, mas sim o compartilhar o encanto, a harmonia do movimento e se sentir em conexão com outras pessoas na emoção daquele momento.
Não adianta ser artista e criar coisa alguma, se não for possível compartilhar com outros essa emoção.
Não importa se a platéia é anônima. O importante é que ela exista, e se emocione. O Ser humano necessita compartilhar. Só existe prazer em se fazer algo, se for para oferecer a alguém. Só existe prazer em um sentimento, se o mesmo puder ser compartilhado. Só existe corrente positiva de pensamento, se houver mais de um para formar a corrente. As perguntas necessitam respostas para fazerem sentido e não se perderem no ar, como uma grande interrogação. Do contrário, teremos a impressão de estarmos sós em um imenso vazio, onde só o eco de nossa própria voz nos responde com as nossas perguntas ao invés de respostas. E sem compartilhar, a humanidade caminha cada vez mais pra a solidão e o egoísmo, de não querer dedicar ao outro nem uma pequena parcela de si, ou de seu precioso tempo.
Então pude entender e bem dizer o pequeno artista do sinal. E agradecer pelo encantamento proporcionado, e o desprendimento pelo tempo doado, a tantos anônimos, incluindo a mim.
Escrito por gracamourao 